domingo, 21 de junho de 2015


Mais uma chance


Chegou tarde do trabalho. Estava pálido como se tivesse passado uma grande aflição. Era noite de tempestade, mas as emoções, pensamentos e vertigens eram fortes. Não se conteve. Havia uma súbita inspiração nascendo em algum lugar de sua alma. Sabia que se não escrevesse perderia o momento. Perderia aquela comunicação divina e etérea que só os amantes da linguagem literária conhecem. Não falou com a esposa nem com os filhos. Era preciso agilidade. Nenhum minuto poderia se perder. A história já se adiantava nos seus momentos máximos e as mãos, pobres mãos! Sempre mais lentas que o cérebro, máquina cinzenta e volumosa a qual nenhum computador conseguiu superar. Abriu a porta do pequeno escritório que mais parecia um quarto de monge. No lugar de um crucifixo ou de uma bíblia repousava um velho laptop que só adquiria vida nos momentos que agora estavam a se desenrolar.  Um homem caminhando sozinho numa noite de chuva desenhava-se nas linhas do editor de texto. As palavras começaram a pintar as cenas frias e sombrias de uma noite que ficaria pra sempre na mente do personagem que agora nascia. Carros estacionados e de vez em quando diamantes brilhantes reluziam nos recônditos escuros nas faces de felinos, eternos amigos da boemia e da escuridão. Ele vinha apressado. Perdera o último trem e agora o mau tempo o obrigara a uma caminhada de dez quadras que o separavam de sua casa. No meio do caminho sentiu que estava sendo seguido. Um medo que insistia em crescer no seu peito, mas que era reprimido pelo ingênuo desejo de refrear a realidade apenas crendo-a diferente. Ao seu redor apenas prédios comerciais e poucas janelas iluminadas denunciando sonâmbulos moradores que mais pareciam vampiros a despertar quando o centro da cidade dormia. A chuva agora era torrencial e os pingos se chocavam com força em seu rosto. Os pés completamente encharcados produziam um caldo de lama em seus sapatos que agora se inchavam conforme seu passo se apressava. Por um instante esqueceu seu temor ignorado, mas agora o medo emitia sons. Sons de passos que se aproximavam cada vez mais. Repeliu o medo mais uma vez. Os passos agora pareciam estar a menos de dez metros. Virou-se. É um assalto! Uma arma agora estava apontada para sua testa. Ficou imóvel. Indefeso, mal respirava e a voz não saiu quando o homem exigiu a carteira. Levou uma coronhada na testa. Tá surdo porra! Passa a carteira! Trêmulo alcançou a carteira no bolso de trás. Entregou ao homem que rapidamente a abriu e retirou o pouco dinheiro que lá havia. Fitou os olhos de sua vitima. Olhos que já vira inúmeras vezes, ali mesmo naquela rua. Estavam cheios do sentimento que lhe dava êxtase. Um prazer doentio que o obrigava a finalizar suas ações com o máximo de covardia. Vai morrer! Empunhou a arma, puxou o gatilho... o personagem da pequena história então pode ver tudo, mesmo com olhos fechados viu o filme. Aquele que dizem passar diante dos olhos na hora da morte. Viu sua infância, adolescência, juventude e maturidade. Viu todos os momentos, os bons e os maus. Os rostos felizes daqueles que lhe deram o prazer de dividir sua existência. Viu os que se foram e os que ainda estavam com ele. Ouvia as vozes dos filhos. Seus gritinhos pela casa em dias de domingo. Dias tão desejosos de descanso e que quase sempre lhe roubavam o restinho das forças não consumidas no trabalho. Viu sua mulher. Sentiu seu cheiro, sentiu suas carnes quentes e depois aquele par de olhos tão calorosos, tão doces, tão meigos... Abriu os olhos com os “clics” repetidos da arma que não funcionara. Como todos os covardes, o bandido sentiu que poderia ser pego por sua vitima e correu retornando às trevas que o acolhiam envolvendo-o como a um demônio. Retomou seu caminho. Chegou em casa e só depois de registrar tudo o que viveu em seu pequeno laptop foi que saiu e amou sua família como nunca houvera amado antes. 

terça-feira, 2 de junho de 2015

Fim da escola = Fim da civilização

               

FONTE DA IMAGEM: pt.forwallpaper.com

FIM DA ESCOLA = FIM DA CIVILIZAÇÃO
            
              Quando as ruínas de Wosh foram encontradas houve um alvoroço em toda comunidade científica mundial. Ninguém podia acreditar que em pleno século XXI seria possível encontrar uma civilização tão desenvolvida como aquela. Os Woshianos, como logo se convencionou chamar, eram um povo extremamente avançado e continua em mistério o que causou a ruína da mais organizada sociedade até agora encontrada pelos arqueólogos. Wosh não era superior aos egípcios nem mais evoluída que os antigos gregos, mas detinha em sua organização social algo que nenhuma outra sociedade, anterior à nossa, chegou a pensar, organizar e manter. Wosh tinha escola. Tal como a nossa, a escola de Wosh destinava-se a um objetivo: formar trabalhadores para atuarem produtivamente em sua máquina econômica que no caso de Wosh era a agricultura e comércio de artesanato, roupas e gêneros alimentícios em geral. Para o leitor que aqui resolveu dedicar preciosos minutos de seu tempo, não entrarei em delongas infindáveis sobre localização, clima e informações de segunda categoria. Importa-nos, porém saber que motivos levaram esta organizada sociedade a falir e é nesse nobre esclarecimento que nos deteremos nas linhas adiante.
                Os arqueólogos descobriram que no início os pequenos vilarejos de Wosh viviam subordinados aos caprichos da natureza. Enchentes, secas e temporais destruíam freqüentemente o ardoroso trabalho agrícola dos woshianos de forma que a primeira ação discutida e decidida pelos anciãos foi que, a partir daquela data, jovens woshianos seriam enviados aos campos para que constantemente observassem os tempos no sentido de prever os terríveis eventos climáticos que até ali haviam reinado sobre as vidas dos pobres cidadãos de Wosh. O primeiro problema surgiu quando, após anos neste ofício, os jovens woshianos incumbidos de tal tarefa, passaram a manter seus registros e observações somente para si. Deste ponto até o surgimento dos primeiros sacerdotes e feiticeiros que previam o futuro com acerto “mágico” foi apenas um passo. As primeiras classes não demoraram a surgir e os conflitos também vieram com guerras e separações até que um importante cidadão de Wosh financiou uma revolta e implantou uma série de mudanças. WoshMax decidiu que dali em diante ele e seu exército representariam a vontade dos woshianos e justificou que dessa forma haveria um ser maior que todos, mas que ao mesmo tempo representaria a vontade de todos. Estava criado o Estado dos Clãs de Wosh. Dentre as obras de WoshMax, a mais interessante foi a escola woshiana que recebeu o estranho nome de Prédio. Em seu decreto estavam escritos os quatro preceitos básicos do funcionamento do prédio:

 * Todo cidadão de Wosh, homem ou mulher, a partir dos 9 anos passará a freqüentar o Prédio para aprender tudo o que for necessário para exercer sua cidadania e contribuir para o bem da sociedade.

  * O cidadão woshiano cumprirá dez ciclos de estudos na escola. Cada ciclo terá um ano de duração e o mestre decidirá, através de testes, se o aprendiz está apto para o próximo ciclo. Se não estiver deverá repetir o ciclo.

Todo aprendiz deverá mostrar respeito e reverência pelo mestre.

O prédio terá por objetivo reproduzir em sala tudo o que o aluno precisará aprender para participar da vida em sociedade.

                 O prédio foi a maior invenção de WoshMax e nos registros encontrados nas ruínas da antiga cidade há várias imagens onde WoshMax é reverenciado como um Deus pela sua brilhante invenção. O prédio funcionara muito bem no início. Todos os pais queriam ver seus filhos freqüentando o Prédio e como tudo era sustentado pelo Estado woshiano a escola tornou-se acessível a todos. Só as crianças não conseguiam entender porque era necessário sair dos campos ou das fazendas para aprender as coisas que elas já aprendiam nos campos e nas fazendas. Mesmo com a relutância dos mais jovens o prédio de ensino de Wosh começou a dar os primeiros resultados. Os jovens que concluíam o período de dez anos começaram a perceber que os processos agrícolas poderiam ser melhorados. Começaram a criar formas mais rentáveis e econômicas de usar a terra e fazer comércio e todas as mudanças começaram a enriquecer os cidadãos detentores de mais terras e os comerciantes com pontos de venda mais bem localizados. Wosh passou de um aglomerado de aldeias para um grande centro econômico. Sentiu-se a necessidade de proteger melhor as cidades e logo o exército ganhou importante reforço. Wosh já não era mais a mesma. O luxo, a riqueza e as diferenças sociais transformaram a antiga vila em uma importante metrópole. Acontece que com a concentração de renda e o enriquecimento de alguns, começaram a haver pequenos conflitos entre os velhos senhores enriquecidos e os jovens que saiam do Prédio. Os jovens sabiam que algo estava errado e não concordavam mais em contribuir com o crescimento daquela sociedade tão desigual. Wosh viveu nessa época seus primeiros protestos de rua. Com os protestos vieram o vandalismo, a depredação e a histeria coletiva. Nascia a esquerda Woshiana. Liderada pelos primeiros alunos do prédio o movimento começou a crescer e tomar corpo. Ideais de igualdade, fraternidade e justiça enchiam as praças da cidade e não era raro ver pequenos comícios a inflamar a multidão contra os ricos senhores e o Estado Woshiano, a quem chamavam de Woshiatã.
                Os velhos senhores, donos das terras e dos comércios exigiram uma audiência com WoshMax que nesta época já era um ancião. A audiência ocorreu numa velha fazenda na calada da noite. Os velhos rosnavam de ódio contra os agitadores, particularmente contra um líder de nome engraçado: Woshgovara. Homem exaltado que tinha o hábito de não barbear-se, comportamento já copiado por seus seguidores. Em meio a gritos e planos de assassinato o velho WoshMax ergueu seu corpo grande, velho e pesado e bradou:
                __ Silênciooooo!!! Vós sois tardos em compreender as causas e efeitos que aqui se discutem de forma tão equivocada? Como pretendeis eliminar um, dois ou quarenta homens? Acaso achais que isso nos dará solução? Tolos!!! Temos de matar idéias e não homens. Homens se compram! Idéias sim, essas podem ser mortas.
                __ O que nosso experiente chefe sugere então? Replicou um ancião.
                __ Ataquemos a fonte das idéias e então acabaremos com nossos problemas.
                __ E o barbudo? O que faremos a ele?
                __ Busquem seu preço. Todo revolucionário tem um preço!
                A reunião terminou e no outro dia os planos tiveram inicio. A primeira ação foi cortar pela metade os recursos destinados ao prédio. Desta forma os salários dos mestres reduziram-se e muitos desistiram do ofício. Outros mestres menos qualificados começaram a ser aceitos pelo Estado. A qualidade do ensino e da aprendizagem começou a cair. As reprovações que se destinavam a corrigir e reforçar o aprendizado deficiente foram extintas. Sob o argumento de que estudante na escola era prejuízo para o Estado woshiano os jovens foram sendo aprovados sem capacidade técnica. Alunos que não aprendiam eram imediatamente taxados de incapazes. Eram enviados aos curandeiros da cidade que condenavam os jovens beberem misturas de ervas que os tornavam sonolentos e letárgicos como zumbis. A alimentação no prédio diminuiu e não sustentava mais os alunos na escola. O abandono ao prédio começou a surgir. Jovens eram vistos nas praças e ruas quando deveriam estar nas escolas. Com o ócio passaram a se drogar e cometer crimes. Outra instituição surgiu para resolver o problema. Chamava-se prédio também, só que lá não se estudava. Os jovens pegos cometendo crimes eram enviados para o segundo Prédio e cumpriam penas corretivas de um a dez anos. Quando saiam de lá estavam piores do que quando entravam. A inovação e a técnica na produção começaram a sumir. Não havia mais pesquisa e os rendimentos começaram a cair. Os ricos começaram a empobrecer. Os pobres se desesperaram e os jovens que não caíram nos crimes fugiram para outras cidades. Ao receber um cargo de honra e um salário mensal, o barbudo revolucionário Woshgovara traiu seus ideais e abandonou a “causa”.
                Wosh acabou em guerras, conflitos, pobreza e decadência. Nem a direita nem a esquerda foram capazes de sustentar a cidade que nasceu do nada, cresceu e floresceu, mas no auge de sua beleza e riqueza, foi destruída pela ganância e pela alienação. Em um dos pilares do antigo prédio está gravado em letras garrafais o que muitos de nossos governantes poderiam aprender:

“Não se constrói uma grande civilização sem sabedoria e conhecimento, contudo sabedoria e conhecimento também são necessários para destruir esta mesma civilização.”

* Aos que se interessarem: Escreva "falso" no tradutor do Google e escolha o idioma russo. Wosh é somente a pronúncia da palavra "falso" em russo.

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