quinta-feira, 27 de abril de 2017

O OLHO MÁGICO
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Fonte da imagem: http://oglobo.globo.com/brasil/lixao-da-estrutural-17981833
     Ainda estava escuro quando Pedro acordou. Sua mãe e a pequena irmã já estavam de pé. Comiam algumas bolachas secas encontradas no dia anterior. Ele sentou, esfregou os olhos e pôs-se a orar. Em geral fazia esse ritual sem prestar muita atenção ao que dizia. Quase já não havia mais fé em seu coração. Quando se tem apenas oito anos, vivendo em um grande e fétido aterro, é difícil manter a fé. Mesmo assim gostava de rezar o pai nosso que o falecido pai lhe ensinara. De alguma forma a presença do amigo podia ser sentida nesta pequena parte da manhã. "Toma café, come a bulacha e vem, o caminhão já já chega". Ele atendeu à ordem da mãe e enquanto tomava café contemplava o dia pela janela embaçada do barraco. No horizonte as imensas montanhas de lixo em cujos cimos sobrevoavam dezenas de urubus.
    De botas e luvas improvisadas Pedro apanhou seu saco e partiu para o encontro com o primeiro caminhão do dia. O sol já mostrava sua força dourando a fina pele do menino, esquentando sua cabeça e iluminando um cenário apocalíptico. Ao seu lado juntavam-se outros meninos, meninas, mulheres e homens, todos vestidos com grossos farrapos e botas que buscavam dar-lhes alguma proteção, mas que na verdade lhes emprestavam a aparência de um exército cabisbaixo e cansado.
     Quando o caminhão chegou, seres humanos, pássaros, roedores e cães vira-latas juntaram-se na busca frenética de encontrar algo de valor e, com sorte, o que pudesse servir de comida. "Olha mãe, o que é isso?". A mulher tomou das mãos da pequena menina um objeto metálico. Observou-o e jogou fora. "Um olho mágico, besteira. Procura comida, anda!". De todas as palavras que Pedro ouviu somente duas se fixaram em sua memória: olho mágico. Como poderia ser? Isso existe mesmo? O garoto apanhou o objeto e após manipulá-lo sem saber direito como usar, colocou-o no olho direito e mirou o horizonte. 
     O olho o transportou para uma praia não muito longe dali. Em vez de urubus, lindas gaivotas. As montanhas não eram de lixo, mas lisas e de um bege reluzente e o mesmo sol que agora queimava sua pele iluminava o mais azul dos mares. O olho era realmente mágico.

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